Quando se fala em cultura piauiense é comum pensar nos festejos, na nossa cajuína e na inconfundível carne de sol que só o Piauí tem, mas nem só de festas e tesouros gastronômicos é formada a identidade do estado. O artesanato produzido por aqui reflete uma parcela dos encantos de um povo que, apesar dos entraves da vida, consegue se destacar e manter a família com os frutos do trabalho diário. Neste domingo (19), Dia do Artesão, o G1 conta histórias de alguns deles.
Cada artista possui suas características e memórias, além de concepções e inspirações para desenvolver suas peças. É comum as técnicas serem repassadas por diversas gerações e, desta maneira, a tradição vai se mantendo viva com a reprodução fiel aos padrões artísticos compartilhados entre avós, mães, pais, netos e outros aprendizes. Em algumas famílias que trabalham no Pólo Cerâmico do Poty Velho, em Teresina, este ofício vem de tantos anos que se torna um modelo de exercício para os descendentes.
Na casa de Antônio Castro, a relação com o artesanato vem desde antes do seu nascimento. Os seus avós e diversos parentes eram trabalhadores que viviam a partir da comercialização de peças de cerâmica. Antônio começou a trabalhar com argila aos 10 anos quando ajudava seu pai no resgate da matéria-prima e no labor manual. Sem tirar a mão da massa, ele contou ao G1 que seu filho e sobrinhos mantêm a tradição.
“Eu peço aos meus netos que estudem, é bom saber fazer artesanato para não faltar serviço, mas se viver apenas disso o futuro pesa”, contou o artesão de 52 anos.
Nas proximidades do Pólo Cerâmico existem diversas casas de venda com produtos procedentes do trabalho manual e a variedade torna o local um espetáculo de cores e formas. Nas esculturas, nos potes, nas decorações de jardim e até nas miniaturas estão impressos a base da beleza particular do Poti Velho.
“Por aqui tem muitas peças diferentes, ninguém trabalha igual. A gente tenta dar conta, mas aqui procuram peças que às vezes não tem porque não damos conta do material”, disse Antônio sobre a demanda.
A história de José de Ribamar Pereira possui similaridades com a do seu Antônio. Ele foi criado e ensinado pelo tio que era artesão e, atualmente, o filho e o neto também realizam o mesmo trabalho. “Graças a Deus, já criei toda minha família, estou com netos e tudo isso com o dinheiro do artesanato. Mais de duzentas pessoas vivem da renda que ganha aqui”, contou com felicidade.
De acordo com Ribamar, na sua loja os filtros são os artigos mais procurados pelos clientes. A dificuldade está no processo de estoque da matéria-prima. “Eu preciso vender os filtros e as outras peças para poder ganhar o dinheiro para comprar mais barro”, revelou.
Conforme o Programa de Desenvolvimento do Artesanato do Piauí (Prodart), o Piauí possui 5,5 mil artesãos cadastrados e no Poti Velho existem cerca de 280 homens e mulheres registrados.
As cerâmicas decorativas são as mais vendidas o ano todo e quando chega a época natalina a arte santeira é mais procurada para ornamentar presépios, igrejas e comemorações festivas. Para a ex-presidente da Cooperart e da Associação dos Artesãos em Cerâmica do Poti Velho, Raimunda Teixeira, o apoio de instituições como o Sebrae, Prodart e Fundação Walter Alencar foi essencial para melhorar o trabalho oferecido pelos associados.
O coordenador do Prodart, Francisco Jordão deu referências importantes e atuais sobre ações sociais voltadas para a classe artesã do estado. “Estamos desenvolvendo o projeto ‘Saber Fazer’ para artesãos do interior em 27 municípios-pólo. Neste ano será iniciada a escola piauiense de artesanato para qualificar os profissionais que já atuam no artesanato e incentivar o surgimento de mais artesãos. Será criado também o portal de artesanato piauiense, a nova loja piauiense de artesanato e em abril terá uma grande exposição de artesanato em Pedro II”, revelou Jordão.
“Nós, artesãos, temos a responsabilidade de contar a história e a cultura de nosso estado, nossa cidade. Ultimamente temos trabalhado coleções que exaltam a nossa cultura e quando a peça leva essa história, que só é feita aqui, tem uma agregação de valor muito grande”, ressaltou Raimundinha.
Ela também exaltou a história da mulher da comunidade do Poti Velho é contada nas bonecas vendidas na cooperativa, onde a mulher religiosa, a mulher do pescador, a oleira, a ceramista e a mulher das continhas levam a identidade teresinense onde chegam. “Mulheres de cerâmica tem em qualquer lugar, mas as mulheres do Poti só nós temos e é uma marca importante que rendeu prêmios no estado, no país e internacionalmente”, finalizou a artesã.
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