quarta-feira, 5 de julho de 2017

Grupo diz que pai de aluna sofreu racismo na UFJF, cria petição online e universidade se posiciona

Caso ocorreu no dia 2 de junho; Coletivo PretAção afirma que pai de estudante teve o carro cercado por seguranças. G1 procurou PM para saber e houve registro de ocorrência.

Coletivo postou relato da estudante em rede social (Foto: Reprodução/Facebook)Coletivo postou relato da estudante em rede social (Foto: Reprodução/Facebook)

Coletivo postou relato da estudante em rede social (Foto: Reprodução/Facebook)

A Universidade Federal de Juiz de Fora se posicionou nesta quarta-feira (5) em resposta à criação de um abaixo-assinado denunciando racismo institucional na unidade e pedindo ações de combate.

O Coletivo PretAção lançou a campanha no último domingo (2) e, de acordo com o grupo, o caso em questão ocorreu um mês antes. De acordo com o grupo, na ocasião, uma estudante foi até o Instituto de Artes e Design (IAD) na universidade, acompanhada do pai, que foi cercado por seguranças armados, que o acusaram de ter roubado o carro em que estavam.

Desde então, o movimento foi compartilhado nas redes sociais, novos posts foram criados e a petição online “Pelo fim do racismo institucional na UFJF” já alcançou mais de 500 assinaturas. O G1 procurou saber se o caso foi registrado na Polícia Militar (PM), mas a corporação trabalha em meio expediente uma vez por semana.

Nesta quarta, a Diretoria de Ações Afirmativas da UFJF divulgou um comunicado informando que recebeu, no dia 5 de junho, a estudante, o pai dela e uma representante do Diretório Central dos Estudantes (DCE), que apresentaram a denúncia e tiveram acesso ao relatório elaborado pelos agentes no dia do caso.

A universidade disse que instaurou um processo de sindicância para apurar a denúncia e que está elaborando outras ações que envolvem a segurança, como a formação para a equipe de servidores e trabalhadores terceirizados, trabalho articulado e sistemático com a Pró-reitoria de Infraestrutura e criação do Fórum da Diversidade da UFJF, como um espaço de construção e acompanhamento da Política das Ações Afirmativas. (veja íntegra da nota da UFJF abaixo)

Grupo criou petição para recolher assinaturas na internet (Foto: Reprodução/Avaaz)Grupo criou petição para recolher assinaturas na internet (Foto: Reprodução/Avaaz)

Grupo criou petição para recolher assinaturas na internet (Foto: Reprodução/Avaaz)

Carro foi cercado por seguranças

No texto que o coletivo divulgou na internet, consta que no dia 02 de junho a aluna esteve no IAD com o pai. Ele conduziu a filha até o interior do prédio e voltou para o carro, que estava estacionado ao lado do instituto. O grupo cita que ele trajava um capuz para se proteger do frio e carregava um berimbau, que usou para espantar os cachorros que estavam no local.

Segundo relato da estudante, assim que ela retornou ao estacionamento, percebeu que o veículo estava cercado por seguranças armados, que estavam chamando reforço e acusando o pai dela de ter roubado o carro.

Em seguida, a aluna contou que uma viatura com mais guardas chegou ao local. Quando conseguiram explicar que a garota é estudante, as vítimas pediram para registrar um Boletim de Ocorrência interno, mas os guardas patrimoniais se recusaram a fazer o documento, alegando que não haviam funcionários disponíveis registrar o caso naquele horário.

O coletivo afirmou, ainda, que a ouvidoria da universidade foi acionada, assim como a Diretoria de Segurança, mas que a questão foi tratada com descaso. “Gestores da instituição responsabilizam o despreparo da guarda patrimonial e se recusam a assumir se tratar de racismo estrutural, o que demanda aplicação das políticas de segurança para a diversidade, previstas no plano de desenvolvimento institucional”, conforme o texto.

UFJF se posicionou sobre denúncia de racismo institucional (Foto: Caique Cahon/UFJF)UFJF se posicionou sobre denúncia de racismo institucional (Foto: Caique Cahon/UFJF)

UFJF se posicionou sobre denúncia de racismo institucional (Foto: Caique Cahon/UFJF)

Veja íntegra da nota da UFJF

"Na manhã do dia 05 de junho de 2017, a Ouvidoria Especializada em Ações Afirmativas da UFJF recebeu uma estudante do curso de Cinema e Áudio Visual, do Instituto de Artes e Design, acompanhada por seu pai e por uma representante do Diretório Central dos Estudantes, apresentando uma denúncia de racismo que teria ocorrido com o seu pai no dia 02 de junho de 2017, por volta das 22 horas.

No mesmo dia 05 de junho de 2017, no período da tarde, a estudante e seu pai foram atendidos pela Gerência da Segurança da UFJF, tendo acesso ao relatório elaborado pelos seguranças sobre o ocorrido no dia 02 de junho de 2017.

A Pró-reitoria de Infraestrutura da UFJF, juntamente com a Gerência da Segurança, instaurou processo de sindicância para apurar a denúncia de racismo formalizada pela estudante.

Nesse momento, a DIAAF vem a público informar que, além do processo de sindicância referente ao caso em questão, algumas ações que envolvem a segurança estão sendo tomadas:

1. Está em curso uma formação para a equipe de servidores da UFJF da área de segurança, no âmbito do PROADES (Programa de Avaliação de Desempenho dos Técnicos Administrativos em Educação), extensivo, ainda, aos trabalhadores terceirizados. Nessa formação, os Direitos Humanos, com temáticas relacionadas às discriminações de raça, gênero, classe, entre outras, serão abordados pela DIAAF.

2. Trabalho articulado e sistemático com a Pró-reitoria de Infraestrutura com o objetivo de tornar essa formação uma prática permanente das equipes envolvidas, para além da PROADES.

No âmbito dessa ação institucional conjunta, questões que se vinculam às temáticas tratadas pela DIAAF ocupam lugar de importância no Fórum de Segurança da UFJF.

3. A criação do Fórum da Diversidade da UFJF como um espaço de construção e acompanhamento da Política das Ações Afirmativas que afirmam o compromisso dessa gestão pelos Direitos da Pessoa Humana.

Acreditamos no que afirmara Nelson Mandela, “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”.

A Universidade mudou nos últimos anos e reconhecemos, como Paulo Freire, em seu livro “Professora sim, tia não”, 1997, p. 53, que “procurar conhecer a realidade em que vivem nossos alunos é um dever que a prática educativa nos impõe: sem isso não temos acesso à maneira como pensam, dificilmente então podemos perceber o que sabem e como sabem”.

Reconhecemos a gravidade de atos preconceituosos, discriminatórios e racistas, que devem ser apurados com firmeza. Reafirmamos que tais atitudes devem passar por uma mudança de todos nós, mudança essa que está relacionada especialmente à educação.

O Brasil tem apenas um pouco mais de um século sem a escravidão e, nesse pouquíssimo tempo, várias entidades do movimento social negro, assim como pessoas comprometidas com a luta anti racista, têm trabalhado para instaurar uma cultura de respeito às diversidades, por meio de uma educação comprometida com o reconhecimento de que todas as pessoas, apesar das diferenças culturais e biológicas, sejam respeitadas.

A UFJF está comprometida com os direitos da Pessoa Humana, afirmando a dignidade de todos e todas, em suas múltiplas dimensões. Por isso, a equipe da DIAAF vem trabalhando para fortalecer princípios e promover ações que possam alicerçar os valores éticos e as práticas que buscam a igualdade e a equidade entre todos e todas.

Diretoria de Ações Afirmativas da UFJF"

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