
Violência em condomínios do 'Minha Casa Minha Vida' preocupa moradores em Juiz de Fora
Em Juiz de Fora, a insegurança preocupa moradores de condomínios do Programa "Minha Casa Minha Vida". Famílias são expulsas de casa por grupos envolvidos com tráfico de drogas. A rivalidade entre bairros é um agravante. O MGTV ouviu alguns moradores sobre os problemas nos residenciais.
O delegado que investiga os casos e o Conselho de Habitação também analisaram as causas da situação. A Caixa Econômica Federal (CEF) e a Polícia Militar (PM) enviaram posicionamentos sobre a apuração das denúncias e as medidas em andamento.
Dos 550 mil habitantes de Juiz de Fora, cerca de 3.600 famílias moram nos 16 condomínios do Minha Casa Minha Vida. Por medo de represálias, muitos moradores preferem não falar sobre o assunto. Desde que não fosse identificada, uma mulher concordou em falar. A gravação teve que ocorrer em outro bairro.
“Tem dia que você sai e não sabe se você vai voltar para dentro da sua própria casa, né? Você tem que ficar prisioneiro na própria casa. Infelizmente é o que tem acontecido. Eu presenciei umas quatro pessoas mortas a tiros. Às vezes, de madrugada, a gente até escuta alguns tiros no bairro. Mas, eu não saio pra ver, né? A gente só ouve. Não sei o porquê, nem de onde vem, nem qual o motivo das confusões, mas tem acontecido no bairro há bastante tempo”, disse.
Muitas das mortes são relacionadas à rixa entre gangues. Um jovem do Nova Germânia contou que perdeu um primo de 15 anos, morto a tiros, por causa das brigas entre grupos rivais.
No Nova Germânia, o asfalto é marcado por buracos gigantes. A praça está praticamente abandonada, com todos os brinquedos estão quebrados e enferrujados. O campinho de terra só tem uma trave, porque a outra quebrou e não foi trocada.
“As crianças ficam jogadas o dia inteiro, tem nada pra eles fazerem a não ser vendo a criminalidade que rola aí. Aí como que as crianças crescem? Revoltadas! Aqui é só criança revoltada”, desabafou um jovem morador.
Durante uma audiência pública na Câmara Municipal para tratar de problemas nos condomínios, a moradora Luciana Moreira contou que o marido dela foi ferido dentro do condomínio e morreu um mês depois no hospital. Ela ainda disse que tinha sido violentada como represália após ter o imóvel invadido.
“Eu fiquei nua da cintura pra cima. E relatei isso pra Caixa Econômica Federal na época novamente e a Caixa não fez nada”, narrou.
Em 27 de julho, a Polícia Militar registrou duas tentativas de invasão no Parque das Águas. Na parte da manhã, houve a reintegração de posse de um terreno da Prefeitura invadido por um grupo.
Homem sendo detido pela PM durante reintegração de posse em terreno invadido no Parque das Águas em Juiz de Fora (Foto: Reprodução/TV Integração)
Na parte da tarde, integrantes deste mesmo grupo invadiram três residências e expulsaram moradores. Segundo a ocorrência, a suspeita é de que as invasões e expulsões foram ordenadas por um jovem de 24 anos envolvido com o tráfico de drogas. Ele chegou inclusive a alugar duas das casas para outras pessoas. As vítimas chamaram a polícia, que deteve oito pessoas entre 16 e 28 anos. Todos foram encaminhados para a Polícia Civil, prestaram depoimento e liberados.
Há dois meses, um vigilante que fazia a segurança do condomínio Novo Triunfo foi morto a tiros num latrocínio. Os ladrões levaram a arma dele. Suspeitos do crime foram presos.
Vigilantes foram atacados por homens nesta casa amarela que funciona como base da empresa no Novo Triunfo, em Juiz de Fora (Foto: Vagner Tolendato/G1)
Posicionamentos
Os casos de invasão de terrenos e residências são investigados na 3ª Delegacia de Polícia Civil. E não foram casos isolados. Os traficantes também teriam invadido casas nos últimos seis meses em outros endereços do Parque das Águas e também no Nova Germânia e Novo Triunfo, como conta o delegado Rodolfo Rolli.
“Geralmente eles pegam as pessoas de mais idade. São jovens, adolescentes, até menores infratores que com o uso de arma de fogo e com bastante violência, invadem ameaçando os moradores de morte”, disse.
Para o delegado, a distribuição das casas nesses condomínios deveria ter sido feita com a orientação da polícia.
“Deveria ter uma integração maior na hora da distribuição desses conjuntos habitacionais no entrosamento do órgão governamental que está entregando essas casas com as pessoas que estão recebendo. Porque colocam em um mesmo local diversas pessoas de bairros que são antigos vizinhos de rivalidade, de briga, de traficância, de homicídio. Isso vem aumentar os índices de violência, não só naquela região como em Juiz de Fora de um modo geral”, analisou.
Em Juiz de Fora, cerca de 3.600 famílias vivem nos 16 conjuntos residenciais populares do 'Minha Casa Minha Vida' (Foto: Reprodução/TV Integração)
Para a presidente do Conselho Municipal de Habitação, Letícia Zambrano, não é possível combater a violência sem garantir serviços básicos para os moradores.
“As famílias têm uma demanda por uma reintegração em trabalho. Muitas vezes, quem vem pra esses empreendimentos são pessoas que estão desempregadas. Então elas precisam de uma capacitação pra voltar a ter trabalho. Aí a falta de oportunidades faz com que a pessoa às vezes acabe indo para um caminho da ilicitude por conta de não ter oportunidade de estarem inseridas na sociedade de uma maneira mais convencional, digamos assim”, explicou.
Em nota, a Caixa Econômica Federal informou que, com relação aos casos de segurança pública nos condomínios populares, encaminha as denúncias à Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp). É a determinação da portaria interministerial nº 647/2014 que pretende integrar ações preventivas e corretivas de condutas ilícitas em programas habitacionais da União.
A Polícia Militar esclareceu que tem executado o policiamento em todos os condomínios residenciais do Minha Casa Minha Vida, fazendo o patrulhamento, para garantir a segurança dos moradores, bem como evitar crimes contra o patrimônio, no caso das unidades ainda não ocupadas. Algumas companhias já realizam projetos visando aproximação com a comunidade, como reuniões comunitárias nos bairros e a disposição de implantação de rede de vizinhos protegidos.
0 comentários:
Postar um comentário