Preso do regime semiaberto contou ao G1 que reeducandos são alvo de agressões e negligência no maior presídio do Amapá. Agentes dizem que casos são apurados.
Detento procurou o G1 e pediu que identidade não fosse revelada (Foto: John Pacheco/G1)
Após cumprir oito anos em regime fechado por homicídio e roubo e progredir para o semiaberto há poucos meses, um detento procurou o G1 e relatou o que viveu durante o período dentro do "cadeião" do Instituto de Administração Penitenciária (Iapen), em Macapá.
Casos de tortura, negligência em atendimentos médicos, omissão de socorro e falta de atividades de ressocialização estão entre os problemas enfrentados dentro do presídio, o maior do Amapá, que conta com 2,6 mil presos, sendo 1,2 mil a mais que a capacidade.
"Se estou sendo revoltado e vim aqui, é pelo que fizeram comigo lá dentro. A gente está ali, fizemos coisas erradas sim, mas estamos pagando pelo que cometemos. Oito anos que 'puxei de cana' perdi muito, família, mulher, mãe, não vi o crescimento dos meus filhos, mas nem por isso vou sair dali pior", contou o detento, que trabalha fora e dorme no presídio.
Amapá tem 1,2 mil presos acima da capacidade do Iapen (Foto: Arquivo/G1)
O apenado, que preferiu não ter a identidade revelada, conta que o afastamento de agentes penitenciários na última quarta-feira (29) por suspeita de tortura a presos, o motivou a detalhar o que supostamente acontece dentro do Iapen. Os profissionais afastados teriam torturado um detento que foi encontrado com um celular onde estavam áudios com ameaças a outros guardas prisionais.
"Eu resolvi tomar coragem, mas tenho medo de chegar no ouvido da administração e sofrer represálias. Lá dentro a gente apanha, é torturado por eles. Chegam abordando a gente, agredindo, e quando há tumulto é bomba, spray de pimenta e o negócio começa a ficar 'doido', porquê a gente fica revoltado, e com isso a gente fica agressivo", descreve.
"Dentro de uma cela com até 40 pessoas, é jogado spray e bomba. A gente não consegue respirar e fica revoltado e corre para a grade para começar a gritar, pedir ajuda, e toma tiro de bala de borracha", lembra detento
Instituto de Administração Penitenciária do Amapá fica em Macapá (Foto: Jéssica Alves/G1)
Agentes discordam
As denúncias de tortura e negligência foram negadas pelo Sindicato dos Agentes Penitenciários do Amapá (Sinapen), que concentra os 949 servidores que atuam no presídio. O presidente da entidade, Edno Bentes, diz que as suspeitas de má conduta dos profissionais são investigadas pelo Ministério Público do Amapá (MP-AP) e pela corregedoria da Secretaria de Segurança.
"No caso da tortura, o MP está investigando. Foram tomados alguns procedimentos e estamos aguardando o resultado das investigações e estamos acompanhando.Nossos servidores negam as agressões, não defendo mentiras, e a investigação está para apurar isso", declarou Edno.
MP e corregedoria apuram casos de tortura contra presos no sistema penitenciário do Amapá (Foto: Ewerton Dias\Arquivo Pessoal)
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Além das agressões que diz ter sofrido, o preso lamenta as condições em que os detentos comiam e recebiam atendimento de saúde. Ele conta que em muitas vezes os presos agonizavam dentro das celas em busca de tratamento, mas eram negligenciados. Lembrou ainda do surto de tuberculose que o presídio teve no início do ano, onde um morreu.
"Quando tinham uns dois presos com tuberculose dentro do cadeião, pedíamos que levassem para a enfermaria porque ele não pode morar no meio da gente. Essas pessoas ficaram assim mesmo no meio da gente, e contaminaram os outros. Porque tem pessoas que ficam doentes e são para isolar na enfermaria, mas não, deixam no meio das outras pessoas. Não querem ser contaminados, mas não fazem nada para evitar que se alastre", lembrou o apenado.
Os casos de tuberculose chegaram a nove dentro do Iapen, informou a direção no fim de fevereiro. Durante o surto da doença, os agentes chegaram a trabalhar usando máscaras. O governo do estado informou na época que os doentes foram isolados e a suspeita chegou a 200 casos.
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