segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Mercados do Mafuá e São Joaquim: bolo frito e café quentinho no início da manhã

Clientes tomam café no mercado do Mafuá em Teresina (Foto: Gilcilene Araújo/G1)Clientes tomam café no mercado do Mafuá em Teresina (Foto: Gilcilene Araújo/G1)

Clientes tomam café no mercado do Mafuá em Teresina (Foto: Gilcilene Araújo/G1)

Nesta semana, o G1 publica reportagens especiais sobre os mercados de Teresina. Nesta segunda-feira (14), vamos conhecer um pouco da história dos mercados do Mafuá e do Mercado da Rui Barbosa, conhecido como Mercado do São Joaquim, localizados na Zona Norte da capital.

É manhã de domingo e enquanto muitas pessoas estão em casa curtindo um dia de folga, para os feirante é dia de aquecer o gogó para conquistar os fregueses. Seja com o grito ou na piada sobreas frutas, os permissionários mantêm viva a tradição da feira-livre. Os comércios também são pontos de encontros na madrugada seja para tomar um caldo de carne com ovo reforçado ou comer uma panelada após uma noitada, práticas comuns no Mercado do São Joaquim e do Mafuá.

Venda de verduras no mercado de São joaquim zona Norte de Teresina (Foto: Gilcilene Araújo/G1)Venda de verduras no mercado de São joaquim zona Norte de Teresina (Foto: Gilcilene Araújo/G1)

Venda de verduras no mercado de São joaquim zona Norte de Teresina (Foto: Gilcilene Araújo/G1)

Os feirantes chegam ainda na madrugada para organizar as frutas e verduras. Os permissionários que vendem comida também chegam cedo, muitos nem voltam para casa, já que as venda acontecem na madrugada e seguem durante o dia.

Logo que o dia amanhece, entram em cena as vendedoras de café e bolo frito que, com garrafas, copos e vasilhas recheadas de bolo frito nas mãos, saem caminhando buscando alimentar os feirantes que saíram de casa nas primeiras horas da madrugada.

Andando pelos corredores dos dois mercados, os fregueses também encontram boxes com carnes, peixes, serviços de conserto de panelas, venda de alumínio e de roupas. Também há os boxes que vendem cereais no peso. Nestes locais, os clientes podem comprar quilos de feijão, arroz, açúcar e goma.

Os moradores que residem perto destes mercados públicos afirmam que com o passar dos anos, este locais viraram verdadeiros centros comerciantes onde é possível se encontrar de tudo, não sendo necessário o deslocamento para o Centro de Teresina. Apesar da oferta de variedades, em cada mercado há um segmento ou setor que se destaca. Os mercados do São Joaquim e do Mafuá são conhecidos pela venda de comida caseira e ervas medicinais.

Clientes esperam por bolo frito no box da Solimar no mercado do Mafuá (Foto: Gilcilene Araújo/G1)Clientes esperam por bolo frito no box da Solimar no mercado do Mafuá (Foto: Gilcilene Araújo/G1)

Clientes esperam por bolo frito no box da Solimar no mercado do Mafuá (Foto: Gilcilene Araújo/G1)

O G1 encontrou uma longa fila no box 31 do mercado do Mafuá, onde parece haver alguma promoção, mas são apenas os clientes de Solimar Sousa que esperam ela preparar mais uma rodada de bolo frito, uma iguaria típica da culinária teresinense feita com goma, margarina, leite e ovo. Solimar conversaenquanto frita os bolinhos e serve alguns clientes.

“Nosso carro chefe é o bolo frito. Atendo gente de vários bairros de Teresina, tanto que no fim de semana vendo cerca de dois mil bolinhos. Por aqui já passaram artistas, políticos e muita gente importante, só que não faço diferença entre a clientela. Todos são atendidos com a mesma alegria e dedicação”, afirmou Solimar.

O mercado do bairro Mafuá foi erguido em 1966, mas a comercialização de produtos iniciou ainda na década de 30 quando o comerciante Augusto Ferro de Sousa chegou ao bairro trazendo com ele a prática do comércio e dando movimento às ruas Gabriel Ferreira e Amazonas.

Segundo a Secretaria de Planejamento e Coordenação da prefeitura, Augusto Ferro possuía uma mercearia chamada Quitanda Nova e uma sorveteria, a Amazonas. O comerciante era dono de um grande terreno no cruzamento das ruas Gabriel Ferreira e Amazonas. No entorno dos seus comércios foram aparecendo barracas simples feitas de madeira, onde seus donos não pagavam impostos ao governo e sim ao dono do terreno, dando origem às feiras livres.

Dona Francisca diz que só deixará o mercado do Mafuá quando morrer (Foto: Gilcilene Araújo/G1)Dona Francisca diz que só deixará o mercado do Mafuá quando morrer (Foto: Gilcilene Araújo/G1)

Dona Francisca diz que só deixará o mercado do Mafuá quando morrer (Foto: Gilcilene Araújo/G1)

Francisca Vieira, 84 anos, lembra bem desta época, ela conta que começou a trabalhar vendendo verduras quando tinha 15 anos e diz que só abandona o mercado do Mafuá quando morrer. Ela comercializa poucas verduras e diz que o carro chefe são os produtos medicinais que vende. De acordo com Francisca, os "lambedores" são considerados ótimos remédios para a gripe e os resfriados.

“Quando eu comecei não tinha essa estrutura. A gente vendia ali em outro ponto. Sempre gostei de estar aqui. Eu não vou deixar de trabalhar, gosto daqui. A pessoa quando é criada trabalhando não quer deixar de trabalhar. Só falto quando estou doente e acho que fico pior quando estou em casa”, diz.

Sezarina Andrade vende ervas medicinais no Mercado do São Joaquim (Foto: Gilcilene Araújo/G1)Sezarina Andrade vende ervas medicinais no Mercado do São Joaquim (Foto: Gilcilene Araújo/G1)

Sezarina Andrade vende ervas medicinais no Mercado do São Joaquim (Foto: Gilcilene Araújo/G1)

O poder de curar doenças com as ervas medicinais também é garantido pela feirante Sezarina Andrade, 56 anos. Ela vende no mercado do São Joaquim as garrafadas que prometem turbinar a vida sexual, ajudar na perda de peso e até a engravidar e os chamados temperos secos: coentro, pimenta do reino, cravo, cominho, entre outros.

“A tradição do uso de ervas medicinal surgiu com os indígenas e permanece forte na cultura brasileira. Vendo cascas de plantas que serve para a febre, reumatismo, sífilis, úlceras, azia, gastrite, tosse, bronquite, íngua, diarreia, cistite, dor de dente, artrite, distensão dos tendões e infecções da região íntima. Tudo começou com minha mãe, eu vinha quando era pequena, depois ela não pode mais trabalhar por conta da idade e assumi o negócio. Amo ajudar as pessoas com minhas ervas e garrafadas”.

O Mercado Rui Barbosa, mais conhecido como mercado do São Joaquim, foi edificado pelo Prefeito Raimundo Wall Ferraz em 1988. O espaço surgiu para atender vendedores da feira livre que ocorria entre as ruas Monteiro Lobato e Rui Barbosa. Em 2002, foi criada uma feira livre com área de 25 m², colocação de 80 m² de grade de proteção de segurança do mercado e reforma total da parte hidráulica e em 2016, o mercado passou por uma reforma e ganhou cara nova.

A mudança estrutural agradou a família de Ermina Maria de Soua que há 33 anos colocou a primeira banca de comida no local onde foi erguido o mercado. “Tudo começou com uma banquinha de mingau. Na época, meu pai estava desempregado e por incentivo dos vizinhos minha mãe colocou uma mesa com mingau para vender. Não tinha nada aqui, tudo era mato. Os vizinhos que ajudavam minha mãe comprando o mingau, aos poucos, as vendas foram crescendo e começamos a colocar outro tipos de comida. Daí minha mãe teve a ideia de fazer comida para vender para os foliões que voltavam depois das festas ou para trabalhadores que também retornavam para casa na madrugada. A coisa deu certo e hoje somos conhecidas pela panelada, caldo com ovo e arroz que ofertamos. O mercado nos ajudou a sustentar nossa família, por isso somos muito gratas pela existência dele”, disse a filha de Ermina, Irismar Sousa, que assume o negócio durante o dia enquanto mãe recupera as energia de noite em claro trabalhando vendendo comida.

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