As ruas e avenidas não são apenas referenciais de localização, elas acumulam registros históricos de uma cidade. Em Macapá, basta andar por essas vias para encontrar homenagens a autoridades políticas e figuras que ajudaram no desenvolvimento da cidade que, no sábado (4), celebra 259 anos de fundação.
(Foto: Fabiana Figueiredo/G1)
De acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitacional (Semduh), Macapá tem 2.100 ruas e avenidas catalogadas, por onde passam cerca de 465 mil habitantes, estimou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2016. Entre esses logradouros, vamos destacar 5: as avenidas Mendonça Furtado, FAB, Iracema Carvão Nunes e as ruas Eliezer Levy e Hildemar Maia.
Desde terça-feira (31), o G1 mostra uma série de matérias que destacam a beleza e curiosidades de Macapá. Já mostramos como o rio Amazonas, pontos turísticos e a periferia da cidade inspiraram novas músicas e outras já consagradas.
Mendonça Furtado
A Av. Mendonça Furtado, localizada no Centro, é uma das primeiras ruas da capital do Amapá. Ela inicia atrás de um dos prédios mais antigos, a Igreja São José, no Largo dos Inocentes (antigo Formigueiro), e segue até o bairro Santa Rita, na Zona Central, na Rua Marcelo Cândia, em frente a um hospital particular, construído na década de 60.
Atualmente, restam poucas casas construídas no tempo do ex-território e período colonial, que perderam a caracterização com o tempo. Segundo o arquiteto e urbanista e professor de história da Amazônia, José Alberto Tostes, a cidade está perdendo essa paisagem que é importante para a cultura e por contar a própria história.
transformar Macapá em vila (Foto: Reprodução/
Livro Personagens Ilustres do Amapá)
“A preservação do patrimônio edificado resgata a estima do lugar, e é um fator primordial para agregar a comunidade com a valorização das coisas locais e com a visão contemporânea da importância do passado e da cultura. O que ocorre na cidade de Macapá nos últimos anos é um desprezo com os valores culturais locais”, comentou Tostes.
Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1700 – 1769), que dá nome à rua, foi capitão general do Exército e governador das Províncias do Grão-Pará, Maranhão e Rio Negro, que administrava as terras do Amapá nos anos de 1750. Durante o mandato, que durou até 1758, Francisco conseguiu a permissão da corte portuguesa para transformar o povoado de Macapá em vila, além de ajudar com recursos na construção da Igreja de São José, e instalar os poderes Legislativo e Judiciário na capital. Ele morreu em 1769, em Portugal.
Av. FAB
Uma das principais vias da cidade, considerada um divisor das Zonas Norte e Sul de Macapá, a Av. FAB inicia ao lado da Casa do Governador, no Centro, atravessa a cidade, e segue até o bairro Santa Rita, também na Zona Central, na Travessa Joaquim Pinheiro Borges.
(Foto: Reprodução/Acervo Nilson Montoril/
Blog Porta Retrato)
A via leva esse nome porque era usada como pista de pouso de aviões na década de 30, durante a Segunda Guerra Mundial, sendo uma das bases aéreas militares construídas pelos EUA na Amazônia. O antigo hangar funcionava onde hoje fica a Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinf). Os voos auxiliavam os serviços administrativos do governo e a população no transporte de medicamentos para o interior ou de pessoas doentes para Belém, no Pará.
Entre as décadas de 1940 e 1980, o aeroporto foi transferido para o local onde funciona até os dias atuais, e a Av. FAB recebeu toda a estrutura para atender às necessidades do então Território Federal do Amapá, com construção de escolas, praças públicas e instituições como a Câmara de Vereadores, prefeitura de Macapá, palácio do governo e Assembleia Legislativa, além dos principais hospitais do estado.
Até meados de 1990, a avenida também foi palco das principais atrações da cidade, como os desfiles de 7 e 13 de Setembro, do Carnaval, com as escolas de samba e blocos, e A Banda.
“Creio que seja importante idealizarmos no trajeto desta via, a criação do Museu da Cidade. Macapá merece isso, nesta via, deve ser concebida a gênese deste lugar, como também a evolução da própria história da cidade”, sugere o arquiteto Tostes.
Rua Eliezer Levy
Levando o nome de um intendente de Macapá (quando ainda pertencia ao Pará), a rua atravessa a Zona Norte à Sul da capital, passando por escolas tradicionais e por um dos 3 cemitérios municipais, o Nossa Senhora da Conceição.
(Foto: Reprodução/Blog Porta Retrato)
A rua inicia na esquina com a Av. Pedro Américo, no bairro Pacoval, Zona Norte, seguindo em mão única Norte-Sul até a Av. Feliciano Coelho, no bairro Trem, Zona Sul. A partir desse ponto, a rua segue em mão dupla até interceptar-se com a Av. Clodóvio Coelho, também no Trem.
Eliezer Moisés Levy era um paraense, e foi nomeado pelo amigo e correligionário político paraense Magalhães Barata, como intendente de Macapá, onde governou por três vezes. Ele foi responsável por obras como a reforma da Intendência de Macapá, a construção do trapiche que recebeu o nome dele e que foi essencial para facilitar o acesso fluvial à cidade, e a construção da capela do cemitério central. Ele também iniciou a construção da BR-156, quando governou Macapá.
Rua Hildemar Maia
Seguindo no sentido Sul-Norte, a rua inicia no bairro Muca, Zona Sul, em uma rotatória de interseção com a Rodovia JK, e segue até o Aeroporto Internacional de Macapá - Alberto Alcolumbre, localizado no bairro Santa Rita, na Zona Central.
Nunes (Foto: Reprodução/Livro Personagens
Ilustres do Amapá)
A via leva o nome de um paraense que chegou a Macapá no ano de 1957, para exercer o cargo de promotor público, atuando na defesa de crianças e mulheres. Hildemar Maia exerceu a função de secretário geral do governo do Amapá e foi eleito suplente, na chapa do deputado federal Coaracy Nunes.
Hildemar Maia morreu em um acidente aéreo no dia 21 de janeiro de 1958, junto com outras duas personalidades do estado, após uma visita a eleitores no distrito de Carmo do Macacoari. O avião “Paulistinha”, ao levantar voo na localidade, chocou-se contra uma árvore, explodindo e matando Maia, o deputado Coaracy Nunes e o piloto amapaense Hamilton Silva.
O acidente foi histórico e, para homenagear Hildemar Maia, a prefeitura de Macapá “batizou” a rua com o nome dele. Hamilton Silva e Coaracy Nunes também foram homenageados emprestando o nome a outras ruas da capital.
Av. Iracema Carvão Nunes
Outra rua que é antiga e marcou a história da cidade é a Av. Iracema Carvão Nunes, localizada no Centro. Ela é pequena, iniciando na Rua Cândido Mendes, atrás da Casa do Governador, e termina cinco quadras depois, na Rua Odilardo Silva, ao lado da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).
Macapá (Foto: Reprodução/Livro Personagens
Ilustres do Amapá)
A avenida leva o nome da mulher do primeiro governador do ex-Território Federal do Amapá, Janary Gentil Nunes. Acreana, ela havia chegado a Macapá em janeiro de 1944, conquistando a amizade dos amapaenses, porque gerenciava ações sociais com distribuição de leite e sopa, enquanto foi gerente da Legião Brasileira de Assistência (LBA).
Apenas um ano depois de ter mudado-se para Macapá, ela teve complicações com cardiopatia e foi acometida de malária. Iracema morreu e foi sepultada entre populares, representantes do governo e o marido, no cemitério central, onde até hoje estão os restos mortais dela.
Valorização das ruas
Os nomes que batizam logradouros em Macapá são homenagens feitas a moradores dessas regiões, de acordo com o assessor legislativo Davi Santos, da Câmara Municipal de Macapá (CMM). Antigamente, somente a prefeitura podia fazer o decreto.
Atualmente, a nomeação acontece por projeto de lei escrito por dois ou três vereadores, que também precisa de documento com assinaturas de populares apoiando a medida. Após aprovado em plenário, o texto segue para a Comissão de Justiça e Redação da CMM, que tem 15 dias para dar parecer ao projeto. Em seguida, volta para o plenário e, caso seja aprovado, é enviado à prefeitura de Macapá, que tem 15 dias para sancionar ou não a matéria.
Para o arquiteto Tostes, as ruas têm problemas de adequação de meio fio, sinalização para pedestres, e falta de acessibilidade. Ele acredita que o perímetro da cidade, da Cândido Mendes até a Hildemar Maia, deve ser preservado e restaurado, por ter grande vinculação com a memória da cidade.
“Preservar a memória edificada e urbanizada é obrigação, não somente dos governantes, mas de toda a população que faz parte da paisagem urbana da cidade. Reconstruir a linha entre o passado, presente e futuro passa pela mudança de atitude de todos. Um dos maiores patrimônios está ao ar livre, são as nossas ruas e vias que vinculam o nosso passado com o núcleo central da Vila de Macapá”, comentou Tostes.
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