segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Campanha da ONU busca sensibilizar moradores de RR sobre imigração venezuelana e combater a xenofobia

Imigrantes participaram de ação de sensibilização nesta segunda (18) (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)Imigrantes participaram de ação de sensibilização nesta segunda (18) (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Imigrantes participaram de ação de sensibilização nesta segunda (18) (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Com cartazes, música e mímica, dezenas de venezuelanos que trabalham nos semáforos das ruas de Boa Vista participaram nesta segunda-feira (18) de uma ação em alusão ao Dia Internacional do Migrante, realizada pelo Fundo de População das Nações Unidas das Nações Unidas.

A campanha, que ocorreu em um semáforo na avenida Venezuela, zona Oeste de Boa Vista, teve o objetivo de aproximar e sensibilizar a população acerca da questão migratória, no momento em que Roraima recebe um número cada vez maior de imigrantes.

De janeiro a novembro de 2017 foram registrados no estado que fica na fronteira do Brasil com a Venezuela 16.334 mil pedidos de refúgio feitos por venezuelanos. O número é seis vezes maior que os pedidos registrados em 2015 e 2016 juntos.

No semáforo, os venezuelanos usaram máscaras coloridas para interagir com a população. Enquanto parte deles 'limpavam' para-brisas usando a mímica, outros substituíram os cartazes com pedidos de emprego por mensagens sobre migração.

"Jesus também era um migrante", "A história da humanidade é uma história de migrações" e "65,6 milhões de pessoas se deslocam no mundo. Não porque querem, mas porque precisam" eram algumas delas.

A maioria dos venezuelanos vem para Roraima atrás de emprego, como é o caso de Carlos Ribeiro, de 22 anos, e a esposa Niusmare Gonzales, de 21 anos. Eles são da cidade venezuelana de Maturín e estão em Roraima há um mês.

Morando de aluguel em um apartamento com outros familiares, Carlos conta que desde que chegaram a Boa Vista, ele e a esposa trabalham nos semáforos da cidade limpando para-brisas de carros. Ele era vigilante na Venezuela e veio para o estado depois que a empresa onde era empregado fechou as portas.

"É muito difícil. As pessoas nos discriminam, ofendem, jogam o carro em cima da gente, mas não temos outra opção. Não consigo outro emprego", disse o jovem.
Carlos Ribeiro e a esposa Niusmare Gonzales estão em Boa Vista há um mês e trabalham limpando para-brisas no sinal (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)Carlos Ribeiro e a esposa Niusmare Gonzales estão em Boa Vista há um mês e trabalham limpando para-brisas no sinal (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Carlos Ribeiro e a esposa Niusmare Gonzales estão em Boa Vista há um mês e trabalham limpando para-brisas no sinal (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

O relato das dezenas de imigrantes que trabalham precariamente no local é semelhante. Eles contam que deixaram a Venezuela porque no país não tinha comida, trabalho e remédio.

Jéssica Perez, de 19 anos, contou que estudava medicina em Maturín. "Cheguei no Brasil há três meses. Nunca consegui emprego e estou trabalhando na rua porque tenho um filho para sustentar".

Apesar da situação precária, eles garantem que a vida aqui está melhor aqui do que no país de origem. "Só queremos um trabalho bom. Pode ser varrendo a rua, já é alguma coisa", disse Jéssica.

Com música e mímica, venezuelanos que trabalham em semáforo participaram de ação em alusão ao Dia Internacional do Imigrante (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)Com música e mímica, venezuelanos que trabalham em semáforo participaram de ação em alusão ao Dia Internacional do Imigrante (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Com música e mímica, venezuelanos que trabalham em semáforo participaram de ação em alusão ao Dia Internacional do Imigrante (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Estímulo à solidariedade

A consultora do Unfpa em Boa Vista Marcela Ulhoa contou que a ação desenvolvida serve para estimular a solidariedade.

"Boa Vista não estava acostumada a essa quantidade de gente na rua, limpando. Então pela intervenção artística, pelo humor, você consegue passar uma mensagem de solidariedade. Explicar que essas pessoas não estão aqui porque querem, mas sim porque precisam", afirmou.

O administrador Tadeu Pinto passou no semáforo durante a ação e considerou que ela era importante. "Eu acho que tem que existir respeito com os venezuelanos. Os povos, as pessoas tem que se respeitar".

A socióloga France Rodrigues, professora da Universidade Federal de Roraima, acompanhou a ação. Ela pesquisa sobre xenofobia em Roraima e considerou que campanhas como a realizada pela Unfpa ajudam a combater o preconceito.

"Hoje vivemos no mundo todo essa resistência ao outro e isso é muito ruim. Para mim isso é resultado do medo, da ameaça de perder a sua posição, e a dificuldade de aceitar o outro dentro da sua humanidade, ou seja, de considerar o outro também como humano", disse.

Além da Unfpa, a ação realizada contou com apoio da Rede Acolher da Universidade Federal de Roraima, da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Escritório Regional para América do Sul do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) e Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Campanha foi organizada por organismos da ONU (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)Campanha foi organizada por organismos da ONU (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Campanha foi organizada por organismos da ONU (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Imigração em massa

O número de solicitações de refúgio de venezuelanos em Roraima chegou a marca dos 16.334 mil pedidos de janeiro a novembro de 2017.

Por outro lado, o governo do estado estima que 30 mil venezuelanos tenham entrado em Roraima desde 2016. A imigração cresce conforme a crise na Venezuela se alastra nos setores de emprego, alimentos e remédios.

Conforme dados divulgados pela Polícia Federal em Roraima, a maioria dos venezuelanos que migram para o estado são de Caracas, capital do país. Mais de 58% são homens e jovens entre 22 e 25 anos. A maior parte deles são estudantes (17,93%), seguidos por economistas (7,83%), engenheiros (6,21%) e médicos (4,83%).

Nas filas para entrar no Brasil, no município de Pacaraima, os imigrantes relatam que deixam o país vizinho devido a fome e ao desemprego. Muitos deles sonham em recomeçar a vida no Brasil.

Nas ruas de Boa Vista muitos deles estão em busca de trabalho. Nos últimos sete meses o Ministério do Trabalho no estado (MTE-RR) registrou um recorde na emissão de carteiras de trabalho a imigrantes venezuelanos. Nesse período foram quase 3 mil carteiras entregues a cidadãos venezuelanos. Em 2015 foram emitidos apenas 257 documentos, já em 2016 esse número saltou para 1.331.

0 comentários:

Postar um comentário